dezembro 02, 2007



ÁGUA DE REMANSO

Thiago de Mello

Cismo o sereno silêncio:
sou: estou humanamente
em paz comigo: ternura.

Paz que dói, de tanta.
Mas orvalho. Em seu bojo
estou e vou, como sou.

Ternura: maneira funda,
cristalina do meu ser.
Água de remanso, mansa
brisa, luz de amanhecer

Nunca é a mágoa mordendo.
Jamais a turva esquivança,
o apego ao cinzento, ao úmido,
a concha que aquece na alma
uma brasa de malogro.

É ter o gosto da vida,
amar o festivo, e o claro,
é achar doçura nos lances
mais triviais de cada dia.

Pode também ser tristeza:
tranqüilo na solidão macia.
Apaziguado comigo,
meu ser me sabe: e me finca
no fulcro vivo da vida.

Sou: estou e canto.



Pequeno Diário...De uma Viagem em Busca da Baunilha
Um breve relato com poesia e aventura...


Ainda cedo... Dia Azul, cor de passeio, partimos para uma estrada que já faziam anos que não via. Só quando revi, senti saudades, saudades que havia sentido sem saber, de nunca mais tê-la revisitado. Sentimento que só cresceu quando desviamos da estrada principal, e adentramos pela antiga que leva ao Porto de Paranaguá. Caminho todo florido, cruzado diversas vezes pelo ainda mais antigo percurso dos Jesuítas à caminho dos Campos Gerais.

Só ali realmente a doçura veio se mostrar em todas as suas cores, com a neblina descortinando com seu lento acordar, revelando toda beleza ainda intacta da Serra do Mar. Pássaros cantando, bromélias em flor, rios cristalinos e tudo banhado com uma úmida e mansa brisa vinda do mar. À vista, mas longe ainda.

Apesar de tanta conversa, estava só, pensando quantas vezes descemos e subimos aquela serra, quando ainda era criança. Com um carro antigo, e me lembro bem dos sons, gostos e sentimentos do tempo de menino.

Chegado ao fim dessa maravilhosa descida, onde por fim ainda se cruzam alguns rios de água bem limpa, cheios de pedras, cantos de sombra com folhas secas, esperando sua vez para entrar na correnteza. Mal sabem elas que quilômetros a frente o grande Atlântico lhes contará as baladas finais de como navegar.

Chegamos em Porto de Cima - Cidade vizinha de Morretes. De tanto parar, fotografar, apreciar apenas o silêncio, já se fez hora de acalmar a amiga fome que estava bem presente e audível. Coisa feita num casarão antigo, ainda da época colonial, chamado de Dona Siroba - restaurante com comida de frutos dos mar. Pura Delícia. Só isso que posso relatar, pois não vou atentar ninguém, descrevendo as iguarias que saíram daquela cozinha simples. (ampliada pela nossa fome muito grande).

Realizado isso, sem a menor pressa, apreciando cada prato, cada aroma, nos dirigimos finalmente ao que viemos fazer. Fatima já havia me preparado, quando me contou: " Hay, o casal que vive onde vamos fotografar, é meio alternativo, e estão bem distantes da vida moderna. São nordestinos que vieram para o sul e decidiram dar um rumo diferente às suas vidas..." Bom, pensei muitas coisas comigo - mas era melhor chegar lá.

Foi justamente esse o pequeno problema: chegar. Não era apenas dirigir até diante da porta deles e dizer olá. A estradinha de chão, a cada cinqüenta metros de subida ficava mais estreita, com pedras enormes expostas, lavadas pelas chuvas. Fatima dirigindo bem, mas assim mesmo o carro rolava de uma para outra... Isso continuou até o caminho ficar intransitável para aquele carro. Paramos numa sombra e Fatima comunicou: daqui pra frente - só caminhando.

Esse caminho fica no pé do Conjunto Marumbi, que são as montanhas mais lindas do Paraná. (Pensei no almoço na Dona Siroba). Agora subir isso, a bolsa pesada com equipamento fotográfico, tripé igualmente pesado, as botas da Fatima. Ela ainda com uma caixa de isopor para acondicionar as flores para sua futura ilustração botânica... Bom, nada nos restava a não ser subir pela estrada. O calor se fazia bem presente, além de todos aqueles amigos que me adoram por causa da pele clara. Ou seja, mosquitos pólvora, mutucas de todas as espécies, mosquitos, apesar de todo Autan, Citronela e Óleo de Amêndoas (o que mais resolve, acho) que coloquei. Alguns desses seres nem com isso se convencem e entram pelas mangas da camiseta e pela calça... sei lá! Sei que voltei picado em lugares, no mínimo, estranhos.

Finalmente lá. Uma casa branca com janelas e portas azuis emoldurada pela Mata Atlântica, e como pano de fundo, o Grande Marumbi. Entramos, nos livramos da carga, e surgiram apenas dois cachorros que logo se acalmaram depois de rápida e ruidosa apresentação. Finalmente, apareceu a nossa anfitriã de apelido gostoso Sarica, com feições muito marcantes e que apesar de não ser mais tão jovem, muito bonita. Imagino que ela é uma mistura de nordestina com indígena, não sei, não me senti intimo o suficiente para perguntar. Não a percebi assim tão diferente, ou seja lá o que for, e sim uma mulher que tem seu coração nas coisas simples da vida: como fazer pão em casa e assar no forno de lenha. Lá, fogão à gás não tem mesmo, muito menos chuveiro quente, e tantas outras coisas, as quais achamos normais na cidade.

Sarica tem sempre um olhar distante, apesar de prestar atenção na conversa. E descobri, coisa que Fatima não havia mencionado, que é uma maravilhosa ilustradora de pássaros, pois mostrou seus trabalhos, depois de minha insistência. Todos lindos, sem exceção. Olhava as decorações pintadas no velho teto, a mesa rústica de aspecto pesado e muito antiga, quando sou interrompido pela entrada silenciosa de um senhor alto com traços mais sofridos, mas que traz também um sorriso escondido, e tem fala macia e pausada. Sou apresentado ao João, marido de Sarica. Ele é o amante das Flores, e em especial as Orquídeas.

João, como diz Thiago de Mello, "traz uma solidão macia consigo". Viaja muito, conta ele. Vai de onibus para o Nordeste para buscar todo tipo de artesanato, que é vendido aos turistas que passam por Morretes e Antonina. Dessa forma, traz também os amores da vida dele, ou seja, as plantas.

Depois desse gostoso primeiro contato, João estava maravilhado em poder mostrar suas plantas, que crescem em todos os cantos: depois de moitas, dentro do mato ou em pleno sol. Onde o nosso dedo apontava, vinha uma explicação científica, seguida do nome botânico em latim, e o nome popular. Fiquei impressionado com o conhecimento daquele ser sereno. E por fim, aquela que até eu reconheci e soube dizer seu nome em latim.



O poeta Gonçalves Dias dedicou à planta um poema - 1861

A baunilha

Vês como aquela baunilha
Do tronco rugoso e feio
Da palmeira - em doce enleio
Se prendeu!
Como as raízes meteu
Da úsnea no musgo raro,
Como as folhas - verde-claro -
Espalmou!
Como as bagas pendurou
Lá de cima! como enleva
O rio, o arvoredo, a relva
Nos odores,
Que inspiram falas de amores!
Dá-lhe o tronco - apoio, abrigo.
Dá-lhe ela - perfume amigo,
Graça e olor!
E no consórcio de amor
_Nesse divino existir_
Que os prende, vai-lhes a vida
De uma só seiva nutrida,
Cada vez mais a subir!
Se o verme a raiz lhe ataca,
Se o raio o cimo lhe ofende,
Cai a palmeira, e contudo
Inda a baunilha recende!
Um dia só! _ que mais tarde,
Exausta a fonte do amor,
Também a baunilha perde
Vida, graça, encanto, olor!
Eu sou da palmeira o tronco,
Tu, a baunilha serás!
Se sofro, sofres comigo;
Se morro - virás atrás!
Ai! que por isso, querida,
Tenho aprendido a sofrer!
Porque sei que a minha vida
É também o teu viver.


A Baunilha parecia estar a nossa espera. Somente algumas flores não mais suportaram o calor que tinha sido demais. O ar quente e parado da tarde estava tomado do Perfume da Baunilha. João cortou uma parte florida, que seria colocada no isopor, enquanto isso me coloquei a fotografar. Foram 100 fotos aproximadamente, de todas as formas. Tarefa realizada, era uma lacuna de tanto tempo preenchida. Após isso, fiz fotos de dezenas de outras espécies de orquídeas, abacaxis raros - minúsculos com cores fantásticas, suculentas, cactos... Isso nunca tinha fim. Eu sentia a pele ardendo, pois o principal, tinha esquecido: Protetor Solar.

As horas foram sendo engolidas, estava já com aproximadamente 2000 imagens, todas em alta resolução. Lavei meu rosto num riachinho de águas cristalinas. Decidimos que era hora de tomar o rumo de volta. Antes de ir, João tinha feito um mimo. Sabendo da nossa vinda, preparou sorvete de araçá com manga, frutas colhidas ali. Uma Delícia! E tão bem vindo depois dessa longa tarde de calor e mormaço.

Despedidas demoradas, e Sarica nos acompanhou até um pedaço do caminho. Mais despedidas... pois ela é toda ternura.

Como diz o ditado: "para baixo todo santo ajuda". Foi mais fácil o longo caminhar até o carro. Enquanto descíamos, Fatima perguntou o que eu havia feito para o João falar tanto – e respondi: nada! Ela nunca o tinha visto conversar assim. Ele era silêncio...

Colocamos-nos de volta em direção a Curitiba. Optamos em retornar pela estrada nova de Paranaguá, que é toda duplicada, e de trajeto mais curto. O retorno foi o contrário da ida, ambos falamos pouco. Eu porque estava com um misto de vários sentimentos, muitos que ainda não consigo descrever, sem ficar com os olhos marejados. Posso dizer apenas: foi uma experiência que me colocou mais em contato comigo mesmo, do qual muitas vezes fujo.


É ter o gosto da vida,
amar o festivo, e o claro,
é achar doçura nos lances
mais triviais de cada dia.

Pode também ser tristeza:
tranqüilo na solidão macia.
Apaziguado comigo,
meu ser me sabe: e me finca
no fulcro vivo da vida.

Sou: estou e canto.


Revisão realizada pela Querida Amiga Carol Timm
http://casadepalavras.blogspot.com/



novembro 23, 2007



DIZ-ME O TEU NOME...

Maria do Rosário Pedreira

Diz-me o teu nome - agora, que perdi
quase tudo, um nome pode ser o princípio
de alguma coisa. Escreve-o na minha mão

com os teus dedos - como as poeiras se
escrevem, irrequietas, nos caminhos e os
lobos mancham o lençol da neve com os
sinais da sua fome. Sopra-mo no ouvido,

como a levares as palavras de um livro para
dentro de outro - assim conquista o vento
o tímpano das grutas e entra o bafo do verão
na casa fria. E, antes de partires, pousa-o

nos meus lábios devagar: é um poema
açucarado que se derrete na boca e arde
como a primeira menta da infância.

Ninguém esquece um corpo que teve
nos braços um segundo - um nome sim.


©Maria do Rosário Pedreira


novembro 19, 2007



O SONHO

Renata Pallottini

As coisas de sonhar não são palavras.
Como dizer que era violeta o pomar percorrido?
E do muro pesado
que separava esse pomar do outro
como hei de construir as frestas luminosas?

Se num certo momento fui levada
ao jardim do sol posto onde te contemplava
a ti, serena luz, alba serena, como
hei de dizer que o céu era dourado
sem que alianças fáceis rolem, cantem
no lajedo onde os pés pousei a medo?

As coisas de sonhar não são palavras.

Faz-se uma tentativa de segredo
e o cerrado, cerrado pensamento
incrusta-se nos olhos, pedra negra.

As silhuetas vi contra o céu claro.
Depois fugi, olhando a porta em ruínas
onde teus mortos se desencantavam.

Se não posso dizê-lo com palavras,
se não posso toma-lo nos meus lábios,
que beleza cadente é essa que espreito,
por que sei esse amor que não me é dado?


©Renata Pallottini
Chão de Palavras
Editora Círculo do Livro, São Paulo, 1977

novembro 15, 2007



ORFEU REBELDE

Miguel Torga

Orfeu rebelde, canto como sou:
Canto como um possesso
Que na casca do tempo, a canivete,
Gravasse a fúria de cada momento;
Canto, a ver se o meu canto compromete
A eternidade no meu sofrimento.


Outros, felizes, sejam rouxinóis...
Eu ergo a voz assim, num desafio:
Que o céu e a terra, pedras conjugadas
Do moinho cruel que me tritura,
Saibam que ha' gritos como há nortadas,
Violências famintas de ternura.


Bicho instintivo que adivinha a morte
No corpo dum poeta que a recusa,
Canto como quem usa
Os versos em legitima defesa.
Canto, sem perguntar à Musa
Se o canto é de terror ou de beleza.


Pseudónimo do médico Dr. Adolfo Rocha.
Natural de Trás-os-Montes,
viveu e exerceu a sua profissão em Coimbra
onde faleceu no ano de 1995.
Entre muitos outros prêmios,
figura o da Sociedade Portuguesa de Escritores.
Do livro "Libertação" - 3ª. edição - Coimbra (1960)

novembro 11, 2007



CHUVA OBLÍQUA

Fernando Pessoa

Atravessa esta paisagem o meu sonho dum porto infinito
E a cor das flores é transparente de as velas de grandes navios
Que largam do cais arrastando nas águas por sombra
Os vultos ao sol daquelas árvores antigas...

O porto que sonho é sombrio e pálido
E esta paisagem é cheia de sol deste lado...
Mas no meu espírito o sol deste dia é porto sombrio
E os navios que saem de porto são estas árvores ao sol...

Liberto em duplo, abandonei-me da paisagem abaixo...
O vulto do cais é a estrada nítida e calma
Que se levanta e se ergue como um muro,
E os navios passam por dentro dos troncos das árvores
Com uma horizontalidade vertical,
E deixam cair amarras na água pelas folhas uma a uma dentro...

Não sei quem me sonho...
Súbito toda a água do mar do porto é transparente
E vejo no fundo, como uma estampa enorme que lá estivesse desdobrada,
Esta paisagem toda, renque de árvore, estrada a arder em aquele porto,
E a sombra duma nau mais antiga que o porto que passa
Entre o meu sonho do porto e o meu ver esta paisagem
E chega ao pé de mim, e entra por mim dentro,
E passa para o outro lado da minha alma...
(...)

Fernando Pessoa
Portugal
1888-1935

Nasceu em Lisboa. Entre 1895 e 1905, viveu na África do Sul. Escreveu quer sob os heterónimos Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis, quer sob o semi-heterónimo Bernardo Soares e Pessoa ortónimo. É considerado um dos maiores poetas portugueses de todos os tempos. Poeta e prosador. Apesar de muito conhecido, Pessoa continua ainda por conhecer. É, decerto, o mais complexo e diversificado dos escritores portugueses.

novembro 09, 2007



SOBRE FLANCOS E BARCOS

Eugénio de Andrade

Havia ainda outro jardim o da minha vida
exíguo é certo mas o do meu olhar
são talvez dois pássaros que se amam
um sobre o outro ou dois cães de pé
é sempre a mesma inquietação

este delírio branco ou o rumor
da chuva sobre flancos e barcos
o inverno vai chegar
sobre a palha ainda quente a mão
uma doçura de abelha muito jovem

era o sopro distante das manhãs sobre o mar
e eu disse sentindo os seus passos nos pátios
do coração
é o silêncio é por fim o silêncio
vai desabar

©Eugénio de Andrade
In: Véspera de Água


novembro 08, 2007



CAMINHEIRO

Ossip Mandelshtam

Sinto é um medo, um medo insuperável
Defronte das alturas misteriosas.
E dizer que me agradam andorinhas
No céu e do campanário o alto voo!

Caminheiro de outrora, cá me iludo
Pensando ouvir à borda do abismo
A pedra a ceder, a bola de neve,
O relógio batendo eternidade.

Se assim fosse! Mas não sou o peregrino
Que vem dos fólios antigos desbotados,
E o que em mim real canta é esta angústia:

Certo – desce uma avalancha das montanhas!
E toda a minha alma está nos sinos,
Só que a música não salva dos abismos!


©Ossip Mandelstam,

In: Guarda Minha Fala para Sempre
Editora: Assírio & Alvim, 1996
Tradução: Filipe Guerra e Nina Guerra

novembro 07, 2007



TRY TO REMEMBER

©Harvey Schmidt composed the music
©Tom Jones wrote the lyrics

Try to remember the kind of September
When life was slow and oh so mellow
Try to remember the kind of September
When grass was green and grain so yellow
Try to remember the kind of September
When you were a young and a callow fellow
Try to remember and if you remember
Then follow ( follow ) follow ( follow ) follow . . .


Try to remember when life was so tender
That no one wept except the willow
Try to remember when life was so tender
That dreams were kept beside your pillow
Try to remember when life was so tender
That love was an ember about to billow
Try to remember and if you remember
Then follow ( follow ) follow ( follow ) follow . . .


Deep in December it's nice to remember
Although you know the snow will follow
Deep in December it's nice to remember
Without a hurt, the heart is hollow
Deep in December it's nice to remember
The fire of September that made you mellow
Deep in December our hearts should remember
Then follow ( follow ) follow ( follow ) follow . . .


Melhor interpretação dessa música dos
anos 65 - 75, foi feita pelo grupo
The Brothers Four, que tem outro grande sucesso
dessa mesma época: Greenfields.

novembro 06, 2007



MÃE, EU QUERO IR-ME EMBORA

Maria do Rosário Pedreira

Mãe, eu quero ir-me embora – a vida não é nada
daquilo que disseste quando os meus seios começaram
a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande,
murcharam tão depressa as rosas que me deram –
se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu
deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.


Mãe, eu quero ir-me embora – os meus sonhos estão
cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,
só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais
que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos
os sonhos que tiveste para mim – tenho a casa vazia,
deitei-me com mais homens do que aqueles que amei
e o que amei de verdade nunca acordou comigo.


Mãe, eu quero ir-me embora – nenhum sorriso abre
caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca.
Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez
não chames pelo meu nome, não me peças que fique –
as lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-me
embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue
de uma ferida que se foi encostando ao meu peito como
uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer.


Mãe, eu vou-me embora – esperei a vida inteira por quem
nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta
hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem.
Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas
essa voz, tu sabes, não é a tua – a última canção sobre
o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias
foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão
tão grande, e as rosas que disseste um dia que chegariam
virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar.


©Maria do Rosário Pedreira
In "O Canto do Vento nos Ciprestes"
Gótica, 2001, 80 pags.
Portugal


novembro 05, 2007



DOURO

Filipa Leal

Não sei se prefiro o rio
ou o seu reflexo nas janelas espelhadas.

De um lado
os barcos ancorados,
do outro lado:
barcos - na imediata memória das âncoras.
Deste lado, o porto, ou o cais,
contracenando com a sua própria inexistência
daquele lado.

Existirá aquele rio nos espelhos?
Poderá este subsistir sem as janelas?

Sou dourada como os peixes que te
desabitaram. E, do outro lado, sou
desabitada.

©Filipa Leal
in "Talvez os Lírios Compreendam"
Portugal


novembro 03, 2007



AS ÁRVORES

Álvaro Pacheco

Escuta este segredo: o crescimento
é no passado, o presente
é um disfarce
e as árvores que permanecem
quase sempre não têm
a cor normal de árvores.

Fica assim muito claro: como
sobreviver com o vento
não te poupando as crinas dos cavalos

e os pássaros negros te seguindo
vindos de um desenho fúnebre
voando em formação
pelas inscrições no céu
das palavras e gestos
que nos esconderam
as pessoas que amamos?

No passado é que crescem as árvores
sempre no começo do outono
de países distantes.

Teresina, novembro 86.


©Álvaro Pacheco
Geometria dos Ventos
Editora Record - Rio de Janeiro - 1992 - 1ª. Edição

outubro 31, 2007



NA MINHA TERRA

Álvares de Azevedo


Laisse-toi donc aimer! Oh! l'amour c'est la vie.
C'est tout ce qu'on regrette et tout ce qu'on envie,
Quand on voit sa jeunesse au couchant décliner.

. . . . . . . .

La beauté c'est le front, l'amour c'est la couronne,
Laisse-toi couronner!
V. HUGO


I

Amo o vento da noite sussurrante
A tremer nos pinheiros
E a cantiga do pobre caminhante
No rancho dos tropeiros;

E os monótonos sons de uma viola
No tardio verão,
E a estrada que além se desenrola
No véu da escuridão;

A restinga d'areia onde rebenta
O oceano a bramir,
Onde a lua na praia macilenta
Vem pálida luzir;

E a névoa e flores e o doce ar cheiroso
Do amanhecer na serra,
E o céu azul e o manto nebuloso
Do céu de minha terra;

E o longo vale de florinhas cheio
E a névoa que desceu,
Como véu de donzela em branco seio,
As estrelas do céu.

II

Não é mais bela, não, a argêntea praia
Que beija o mar do sul,
Onde eterno perfume a flor desmaia
E o céu é sempre azul;

Onde os serros fantásticos roxeiam
Nas tardes de verão
E os suspiros nos lábios incendeiam
E pulsa o coração!

Sonho da vida que doirou e azula
A fada dos amores,
Onde a mangueira ao vento tremula
Sacode as brancas flores,

E é saudoso viver nessa dormência
Do lânguido sentir,
Nos enganos suaves da existência
Sentindo-se dormir;

(...)

III

Quando o gênio da noite vaporosa
Pela encosta bravia
Na laranjeira em flor toda orvalhosa
De aroma se inebria,

No luar junto à sombra recendente
De um arvoredo em flor,
Que saudades e amor que influi na mente
Da montanha o frescor!

E quando à noite no luar saudoso
Minha pálida amante
Ergue seus olhos úmidos de gozo,
E o lábio palpitante...


Manuel Antônio Álvares de Azevedo.
São Paulo - SP, 1831 - 1852.
Obras Principais: Obras I (Lira dos Vinte Anos), 1853;
Obras II (Pedro Ivo, Macário, A Noite na Taverna, etc), 1855

outubro 30, 2007



OCEANO NOX

Antero de Quental

Junto do mar, que erguia gravemente
A trágica voz rouca, enquanto o vento
Passava como o vôo do pensamento
Que busca e hesita, inquieto e intermitente,

Junto do mar sentei-me tristemente,
Olhando o céu pesado e nevoento,
E interroguei, cismando, esse lamento
Que saía das coisas, vagamente...

Que inquieto desejo vos tortura,
Seres elementares, força obscura?
Em volta de que idéia gravitais?

Mas na imensa extensão, onde se esconde
O Inconsciente imortal, só me responde
Um bramido, um queixume, e nada mais...


Antero Tarqüínio de Quental.
Ponta Delgada (Açores), 1842 - 1891


outubro 26, 2007



A CAMINHO DA CASA

Renata Pallottini

Talvez haja uma carta, ou um livro, ou um poema.
Quando menos há a necessidade de sentir-me doméstica.
Eis o que significa todos termos um endereço:
não é para que os outros nos achem,
mas para que nós nos achemos.

Recuperada a tranquilidade do silêncio que nada turba,
porque os ruídos familiares nem mais ruído são
(tic-tac de relógio que um crocodilo manso engoliu).

Recuperada a unidade de lugar e a unidade de posses:
meus livros, meus discos, meus. . .

Ontem nada me pertencia, na rua,
sob o influxo da noite profunda.

Mas é que agora estou a caminho da casa.
Dessa coisa que faz dos marinheiros seres humanos.


©Renata Pallottini
Chão de Palavras
Editora Círculo do Livro, São Paulo, 1977

outubro 25, 2007



A CONCHA

Ossip Mandelshtam

Talvez te seja inútil minha vida,
Noite; fora do golfo universal,
Como concha sem peróla, perdida,
Me arremessaste no teu areal.

Moves as ondas, como indiferente,
E cantas sem cessar tua melodia.
Mas hás de amar um dia, finalmente,
A mentira da concha sem valia.

Jazer só a seu lado pela areia
E pouco faltar para que a escondas
Nessa casula onde ela se encandeia
à sonora campânula das ondas,

E as paredes da frágil concha, pouco
a pouco, se encherão do eco da espuma,
Tal como a casa de um coração oco,
Cheio de vento, de chuva e de bruma...

(1911)

Tradução: ?
Poeta Russo, nascido em 15.01.1891
Terminou seus dias num campo de prisioneiros, em 27.12.1938, na Sibéria.
Estudou na Escola de Tenishevsky, Universidade de Heidelberg e Universidade de St. Petersburg.


outubro 23, 2007



SAUDADE


Pablo Neruda

SAUDADE... - Que será... eu não sei... tenho buscado
em certos dicionários poeirentos e antigos
e outros livros que ocultam o significado
dessa doce palavra de perfis ambíguos.

Dizem que as montanhas são azuis como ela,
que nela empalidecem longínquos amores,
e um nobre e bom amigo meu (e das estrelas)
nomeia com os cílios e as mãos em tremores.

E no Eça de Queiroz sem olhar a adivinho,
o segredo se evade em sua doçura e sede,
como essa mariposa, corpo em desalinho,
sempre longe - tão longe! - de minhas calmas redes.

Saudade... tens, vizinho, o real significado
dessa palavra branca que, peixe, se evade?
Não... treme na boca seu tremor delicado...
Saudade...


©Pablo Neruda - (Fundación Pablo Neruda), 1974

Título Original: Crepusculario
Tradução: José Eduardo Degrazia
L&PM, Ed. 2004

outubro 19, 2007



A PRIMAVERA


Egito Gonçalves

Pouco sabemos sobre a Primavera!

Mas sabemos que as árvores reverdecem,
navios dançam sobre vagas curtas
e às janelas abrem-se os sorrisos
que adoçam os olhares e as manhãs.

Sabemos que o amor vem dos telhados
para ceifar os restos da agonia
e no ar límpido que anuncia o Verão
a coragem ganha alento, novos ritmos.

Sabemos que são fáceis as viagens
e o lançar de escadas sobre o abismo;
que os ventos são amenos e é possível
com um sopro afastar o silêncio e angústia.

Sabemos que um relógio quebra a inércia
e ordena que se queimem os arquivos;
que há pássaros e peixes que perfuram
a rede com que o cerco nos limita.

Sabemos que então se lavra terra
onde germina o pão e os lilases
e é doce repousar sobre os teus seios
- primaveras também, esperança, vida...


© Egito Gonçalves

De: Poemas Políticos 1952-1979
Moraes editores, 1980

outubro 17, 2007



OS AMIGOS

Sophia de Mello Breyner Andresen

Voltar ali onde
A verde rebentação da vaga
A espuma o nevoeiro o horizonte a praia
Guardam intacta e impetuosa
Juventude antiga -
Mas como sem os amigos
Sem a partilha o abraço a comunhão
Respirar o cheiro a alga da maresia
E colher a estrela do mar em minha mão

1993

©Sophia de Mello Breyner Andresen
(de: Musa, 1994)


outubro 14, 2007



SOBRE TI MESMO...


©Carol Timm

Tu te sentas no teu banco do jardim,
Enquanto contempla os passarinhos,
E pensas nos quintais da tua infância...

Tu escolhes a hora do dia que o sol brando,
Deixa as aves mais a vontade para voar...
E bate as asas com elas em pensamento ou sonho.

Tu entendes que a vida é essa passagem.
Essa aventura até mesmo do que ficou para trás.
Das tardes noutros países, noutras paisagens...

Tu já compreendes que não há morte para ti.
Todos os fantasmas te habitam e com eles revives,
As histórias de tua avó e as tuas histórias são continuidade...


©Carol Timm
Esse maravilhoso poema recebi da Carol,

em resposta ao poema O JARDIM, de autoria da Renata Pallottini.
Obrigado, de todo coração, Carol.
A Foto foi uma das minhas primeiras fotos aos 12 ou 13 anos
de idade, com minha velha Rolleiflex, revelada e copiada em casa.
Fotografia, essa mágica paixão.

outubro 12, 2007



III - QUANDO OS MEUS OLHOS...

Mario Quintana

Quando os meus olhos de manhã se abriram,
Fecham-se de novo, deslumbrados:
Uns peixes, em reflexos doirados,
Voavam na luz: dentro da luz sumiram-se

Rua em rua, acenderam-se os telhados.
Num claro riso as tabuletas riram.
E até no canto onde os deixei guardados
Os meus sapatos velhos refloriram.

Quase que eu saio voando céu em fora!
Evitemos, Senhor, esse prodígio...
As famílias, que haviam de dizer?

Nenhum milagre é permitido agora...
E lá se iria o resto de prestígio
Que no meu bairro eu inda possa ter!...


©Mario Quintana / Helena Quintana 1994
Em: A Rua dos Cataventos, pág. 21
2. Edição - São Paulo - Editora Globo, 2005


outubro 11, 2007



ROMANCE INGÉNUO DE DUAS

LINHAS PARALELAS


José Fanha

Duas linhas paralelas
Muito paralelamente
Iam passando entre estrelas
Fazendo o que estava escrito:
Caminhando eternamente de infinito a infinito

Seguiam-se passo a passo
Exactas e sempre a par
Pois só num ponto do espaço
Que ninguém sabe onde é
Se podiam encontrar
Falar e tomar café.

Mas farta de andar sozinha
Uma delas certo dia
Voltou-se para a outra linha
Sorriu-lhe e disse-lhe assim:
"Deixa lá a geometria
E anda aqui para o pé de mim...!

Diz a outra: "Nem pensar!
Mas que falta de respeito!
Se quisermos lá chegar
Temos de ir devagarinho
Andando sempre a direito
Cada qual no seu caminho!"

Não se dando por achada
Fica na sua a primeira
E sorrindo amalandrada
Pela calada, sem um grito
Deita a mãozinha matreira
Puxa para si o infinito.

E com ele ali à frente
As duas a murmurar
Olharam-se docemente
E sem fazerem perguntas
Puseram-se a namorar
Seguiram as duas juntas.

Assim nestas poucas linhas
Fica uma estória banal
Com linhas e entrelinhas
E uma moral convergente:
O infinito afinal
Fica aqui ao pé da gente.

©José Fanha
Em: Eu Sou Português Aqui

outubro 08, 2007



O JARDIM

Renata Pallottini


Neste velho jardim há três cachorros
enterrados; seus ossos e seu pêlo.
Sua morna gordura transitória
hoje é húmus e flor para o jardim.
Também sangue enterrado de memória;
também gritos e fugas infantis.
Trepadeiras encobrem lagartixas,
há um louco derramar-se do capim.
Crescerem plantas é o silêncio. Tudo
é o mesmo silêncio, de manhã.

As orquídeas azuis já feneceram
há muito tempo em cinza neste chão.
Os animais passam furtivos, entre
os restos de cerâmica e folhagem.
O muro abre nas fendas novos rumos
e em torno o eterno musgo manso nasce.

Os três cachorros jazem enterrados,
numa constância fiel que não tem fim.
Sua morna gordura é hoje o húmus
e seus olhos são flor neste jardim.

©Renata Pallottini
Chão de Palavras
Editora Círculo do Livro, São Paulo, 1977

outubro 05, 2007



QUEM PODE IMPEDIR A PRIMAVERA

Ruy Cinatti

Quem pode impedir a Primavera
Se as árvores se vão cobrir de flores
E o homem se sentiu sorrir à Vida?

Quem pode impedir a surda guerra
Que vai nos campos deslocando as pedras
- Mudas comparsas no ritmo das estações -
E da terra inerte ergueu milhares de lanças
Que a tremer avançam, cintilantes, para o limite
Em que a luz aquosa se derrama
Como um mar infinito onde o arado
Abre caminho misterioso à seiva inquieta!

Quem pode impedir a Primavera
Se estamos em Maio e uma ternura
Nos faz abrir a porta aos viandantes
E o amor se abriga em cada um dos nossos gestos.

Quem?...
Se os sonhos maus do Inverno dão lugar à Primavera!

De: Nós não somos deste mundo, 1941
PORTUGAL

outubro 01, 2007



SE EM PÁSSAROS . . .

Renata Pallottini

Se em pássaros a tarde vai
se a água do lago é verde
por que não somos nós pacíficos mortais
se a morte é essa renovada perda

se pelo lago a voz das crianças voa
e se as crianças ao seu redor (da voz)
tentam voar, por que não somos nós
alguma coisa assim tranquilamente boa

e como as árvores e como o campo (flores
e jamais afã) não vamos nós
ao encontro da tarde e de sua voz
de seus silêncios e de suas cores

e amor não damos, se em pássaros se vai
esta tarde, talvez a última e a mais pura
e não sorrimos e não choramos enquanto a tarde dura
e não nos debruçamos sobre a água que cai

verde como os verões, verde de folha verde
claríssima e translúcida, guardada
entre os limites pétreos da amurada
e as brancas lindes destas alamedas.

Ah, ser respiração de árvore, ondeada
vaga de ramos, rendas de folhagens
ou qualquer coisa de animal e de selvagem
ainda assim naturalmente branda...

Se em tremores se vai a tarde ao vento
e outra igual sabe Deus quando virá
por que não agradeço a qualquer deus em pensamento
antes que a tarde ao vento para sempre se vá?


©Renata Pallottini
Chão de Palavras
Editora Círculo do Livro, São Paulo, 1977

setembro 28, 2007



O POEMA

Sophia de Mello Breyner Andresen

O poema me levará no tempo
Quando eu já não for eu
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê

O poema alguém o dirá
Às searas

Sua passagem se confundirá
Com o rumor do mar com o passar do vento

O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento

No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas

(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)

Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas

E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão

Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo


©Sophia de Mello Breyner Andresen e Editorial Caminho
POEMAS ESCOLHIDOS
Seleção de Vilma Arêas
Companhia das Letras - 2004

setembro 26, 2007



O RIO

Antonio Hernández

Como a pena ou como o cantar
existia desde sempre. Andava já
na montanha como um menino a que ninguém
presta atenção. Ao princípio,
levava nas suas águas toda a luz doentia.
Depois, ao fundir-se com tanta primavera,
Tornou-se luminoso como um conto.
Corria todas as tardes de maneira
diferente e, ao amparo do monte,
conseguia passar entre as pedras,
sobre a terra dura e sobre os obstáculos.
Mas estava tudo tão longe...
o mar, aquele mar sonhado com flores,
com sinos e com a aldeia agitada,
estava tão longe...
Os penedos eram duros,
e por mais voltas que fizessem
as nossas águas, por mais rodeios que fizessem
—o nosso amor, o nosso sonho, a nossa
razão de viver— perdiam por vezes
como o homem que começa a não entender
o melhor de tudo: a fé.

E há
alguns dias não estava como antes,
que com tanto alpechim e águas impuras
o rio turvava-se, perdia-se por si
como se perde uma criança com o seu jogo
mal começa. Contudo,
já tinha tantas horas de angústia,
de união, de entrega, que era impossível
separar-lhe uma gota e tornava-se
mais largo e duradoiro. Como o menino,
acabava por vencer. Era simples.
Se ao camponês o granizo lhe tira
a colheita, a raiva dá-lhe forças
para esperar uma outra. Se a um pássaro
o outono lhe rouba a ilusão, a primavera
devolve-lhe um ninho. Se uma sombra se vai,
uma luz nos chega. E aquilo
era o mesmo. O mesmo. Por mais
águas sujas que fossem para ele
numa tarde qualquer chegaria ao mar.

Tradução: Luís Filipe Sarmento

Antonio Hernández

IN: MARE NOSTRUM (1963-2003)

setembro 24, 2007



AS PALAVRAS

Eugénio de Andrade

São como um cristal
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória,
inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?


In O Sal da Língua Precedido de Trinta Poemas,
Bibliotex, 2001 — 21/12/2006


setembro 22, 2007



OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO

Carlos Drummond de Andrade

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue,
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

setembro 21, 2007



ADIAMENTO

Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o rnundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-rne toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...

O porvir...
Sim, o porvir...

setembro 16, 2007



PARQUES

Vinícius de Moraes

O tempo nos parques é íntimo, inadiável,
imparticipante, imarcescível.
Medita nas altas frondes, na última palavra da palmeira,
na grande pedra intacta, o tempo nos parques.
O tempo nos parques cisma no olhar cego dos lagos,
dorme nas furnas, isola-se nos quiosques.
Oculta-se no torso muscular do ficus,
o tempo nos parques.
O tempo nos parques gera o silêncio do piar dos pássaros,
do passar dos passos, da cor que se move ao longe.
É alto, antigo, presciente o tempo nos parques.
É incorruptível; o prenúncio de uma aragem,
a agonia de uma folha, o abrir-se de uma flor
deixam um frémito no espaço do tempo nos parques.
O tempo nos parques envolve de redomas invisíveis
os que se amam; eterniza os anseios, petrifica
os gestos, anestesia os sonhos, o tempo nos parques.
Nos homens dormentes, nas pontes que fogem, na franja
dos chorões, na cúpula azul, o tempo perdura
nos parques; e a pequenina cutia surpreende
a imobilidade anterior desse tempo no mundo
porque imóvel, elementar, autêntico, profundo
é o tempo nos parques.


Passeiam-se nos parques como gatos. Deslizando, com elegância e sem pressas. Apurando os sentidos, a reconhecer o território. Afagam o tronco de uma árvore, olham a copa e, se fosse da sua natureza, trepariam e ficariam muito serenos, deitados no garfo de dois ramos jovens. Esmagam nos dedos uma folha de lúcia-lima e cheiram-na, aspiram-na, com sensualidade disfarçada. Pontapeiam uma pinha caída no saibro do caminho, para depois, mais adiante, a apanharem e a arremessarem. Como um gato faz com um novelo. São solitários. Evitam cruzar-se com outros exploradores. Procuram tomar caminhos diversos. Debruçam-se nos lagos, molham as pontas dos dedos e não as enxugam. Às vezes passam-nas no rosto. Espiam os pássaros, detêm-se, para não os assustarem.
Os gatos, esses, aparecem de noite. É o seu tempo dos parques. É também o tempo de muitos outros bichos que viram os homens sem serem vistos. Dos mistérios dos parques só os gatos sabem. Nunca os revelarão. Os poetas sabem disso, mas continuarão a deslizar nos parques, imitando os gatos. Na esperança de um dia saberem ler o que eles trazem inscrito nas pupilas.

Licínia Quitério