maio 25, 2007



QUANDO ESTÁ FRIO

Alberto Caeiro

Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável,
Porque para o meu ser adequado à existência das cousas
O natural é o agradável só por ser natural.

Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,
Como aceito o frio excessivo no alto do Inverno —
Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,
E encontra uma alegria no fato de aceitar —
No fato sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável.

Que são para mim as doenças que tenho e o mal que me acontece
Senão o Inverno da minha pessoa e da minha vida?
O Inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço,
Mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime,
Da mesma inevitável exterioridade a mim,
Que o calor da terra no alto do Verão
E o frio da terra no cimo do Inverno.

Aceito por personalidade.
Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos,
Mas nunca ao erro de querer compreender demais,
Nunca ao erro de querer compreender só corri a inteligência,
Nunca ao defeito de exigir do Mundo
Que fosse qualquer cousa que não fosse o Mundo.

maio 24, 2007


O BEM E O MAL

Raquel Naveira

O bem é ser livre
E voar muito além dos pinheiros da montanha.
O mal é ser cativo
E ter olhos de pássaro cegados por agulhas.

O bem é ser jovem
E conquistar com passos decididos a estrada do ideal.
O mal é ficar velho de repente
E fazer um triste inventário de rugas.
O bem é ser semente
E fecundar de palavras o vento e a terra.
O mal é ser solo estéril
E não poder estalar de arroz e mistérios.

Como é árduo escolher o bem!
Voar pode ser extremamente perigoso,
Melhor ficar cego às verdades mais simples.
Como é difícil escolher o bem!
O ideal é chama que se apaga,
Melhor ficar velho diante da própria impotência.
Como é amargo escolher o bem!
A terra se cobre de ervas daninhas,
Melhor ficar calcinado do silêncio do deserto.

Mas se escolhermos o mal,
Não veremos nunca a paisagem além da montanha,
Não teremos o coração rejuvenescido do doce ideal,
Nem provaremos o alimento capaz de nutrir nossas
entranhas mais profundas!

maio 03, 2007



AS PALAVRAS


Alice - Lique (Lisboa)

Falámos de palavras. Falamos com palavras. E sentimos a força das palavras. Palavras, leva-as o vento, diz o povo. Será? Pensemos um pouco nas palavras que lemos ou nos disseram e nunca esquecemos. Aquelas que nos atravessam a mente de quando em quando, provocando uma crispação de dor ou um sorriso.
As vozes dos meus pais e algumas palavras que nunca esqueci. Os livros da escola e tantas palavras que decorei de tal forma que ainda hoje as sei : “Batem leve, levemente…”. As primeiras palavras de amor. Todas as palavras de amor ou paixão que significaram algo. Algumas de desamor que particularmente me feriram. As primeiras palavras das minhas filhas. As palavras dos livros mais lidos, dos poemas mais amados. Das canções que me marcaram. De…
Tantas palavras que a nossa mente retém e que voltam à memória sem sabermos porquê! Será que o vento as levou? Não. Ficaram connosco, indelevelmente marcadas em nós. E provocam emoções diversas. Essa é a força das palavras. De uma forma ou de outra, estimular o nosso pensamento, os nossos sentimentos. E provocar uma qualquer reacção.
E, porque hoje me deu para escrever novamente sobre as palavras, talvez seja altura de deixar falar o silêncio e pensar um pouco em tudo isto que escrevi ao correr dos dedos no teclado e que, afinal, não é mais que um amontoado de palavras. Com ou sem sentido, isso dirá quem ler.

abril 28, 2007



O SEMEADOR

(Tradução: Elpídio de Toledo)

De Schiller

Vê, confias com total esperança
na terra das douradas sementes,
e feliz esperas na primavera
que a semente germine.
Por ter medo do tempo pensas
de fato semear em ti
somente a que, semeada pela sabedoria, em silêncio
para a eternidade florescer?


DER SÄMANN.

Von Schiller

Siehe, voll Hoffnung vertraust du der
Erde den goldenen Samen
Und erwartest im Lenz fröhlich
die keimende Saat.
Nur in der Furcht der Zeit bedenkst
du dich Thaten zu streuen,
Die, von der Weisheit gesät, still
für die Ewigkeit blühen?

abril 25, 2007



CAMALOTES

Raquel Naveira

Na cheia
Os camalotes bóiam,
Estufados corpos aquáticos
Que a correnteza leva;
Conjunto de leques duros,
Verdes,
Que se dissolvem no silêncio;
Aqui e ali um buquê de flores
Arrebenta lilás;
A malha fina de raízes
Apanha peixes,
Escamas,
Pés delicados de pássaros que pousam;
A canoa de folhas
Navega sem leme
Rumo à foz,
À pedra,
Ao mar que espreme
E espuma.

abril 13, 2007



A CONCHA

Vitorino Nemésio

A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fachada de marés, a sonho e lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.

E telhados de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta ao vento, as salas frias.

A minha casa. . . Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.

(Poesia, 1935-1940)

abril 01, 2007


DO OUTONO

Licínia Quitério

Veste um fato arroxeado
cor de súplica.
Talvez pela manhã
se pudesse dizer acastanhado.
Lavrado de ogivas
e de mãos em estrela.

Sobre a terra gretada
e as pedras ainda mornas,
verte promessas de frescura.
Segreda destinos às aves de viagem.
Conduz as mãos dos homens
no afago de telhados e janelas.
Ensina as conchas da ternura
aos amantes cansados das areias.

É um tempo amável,
para ser lido nas heras
irmãs dos velhos muros,
nos frutos caídos de muitas gulas,
no leque multicolor do sol poente.

Dão-lhe o nome de Outono.
Ele chama-me Inverno.
Como quem diz sossego
ou anúncio de sono.

É inevitável falar dele. Do Outono. Para nós, os que vivemos visitando as quatro assoalhadas da nossa casa anual.
Há quem o adore e se sinta acalmado dos excessos do Verão. É tempo bom para os contemplativos das subtis mudanças. Inspirador de poetas e músicos e pintores. Há quem o tema e pense nele como num fim de tempo.
Aqui, em nossa volta, a Natureza afadiga-se na mudança dos cenários. Sinto-lhe a respiração forte de quem tem muito para dizer. Não deve ser nada fácil preparar o arrumo dos móveis na velha e austera fortaleza do Inverno.