Março 09, 2009

MINHA DESPEDIDA!!!

Vania Staggemeier

Não é um adeus definitivo...
Preciso de tempo...
Vou sair pelo mundo...
Vou viajar...Estudar..
Vou curar as feridas da alma...
E também do coração....

Vou analisar o mundo os Astros...
Mas levo todos vocês em meu coração...
Vou deixar a porta aberta para quem quiser...
Visitar-me e deixar o seu recado...
Onde quer que eu esteja...
Sempre que der passarei para lhe visitar...

Sou errante...Viajante do tempo...
Eu sou como o vento...
Apenas eu passo...
Se sentires um leve aroma de jasmim....
Serei eu que estarei chegando...
Pra matar minha saudade...
Dos amigos que aqui deixei...

Vou passar na Argentina...
Vou dançar um tango de Gardel...
Vou levar meu violão...
Vou rimar meus versos...
Vou ouvir meu coração...
Vou apreciar a natureza...
Vou observar o colorido das flores...
Vou melhorar meu visual...
Vou aos anjos agradecer...

Não é um adeus...Apenas uma partida...
Na vida precisamos inovar novos caminhos...
E eu ainda sou uma mera aprendiz...



Faço uso das palavras desse lindo poema
E deixo o meu adeus desse espaço,
Onde vocês deixaram tanto carinho,
Que meu coração segue cheio
De Saudades...





Dezembro 02, 2008

MUDEZ

Torquato da Luz


Quando por fim voltares, traz no olhar
a nesga de areal onde algum dia
te encontrei entre a espuma e a maresia,
passeando a surpresa de haver mar.

Traz também nos cabelos o luar
e deixa que o veneno da poesia
nos envenene aos dois em sintonia,
como exige o mistério do lugar.

Talvez assim eu possa finalmente
segredar-te as palavras que não soube
dizer-te no momento em que te vi

pela primeira vez e, de repente,
o mundo foi tão grande que não coube
na minha voz e logo emudeci.


©Torquato da Luz
http://oficiodiario.blogspot.com/



Outubro 18, 2008



O ALFANGE DO TEMPO

Thiago de Mello


Para Antonio Faria

O tempo é o grande milagre
da vida do homem no mundo.
Não tem começo nem fim.
Mas está vivo, animal
respirando imenso em tudo
que a gente quer, sonha e faz.

O tempo que já passou
te conta como vai ser
o tempo que vai chegar.
Tudo leva a sua marca,
de pétala ou de ferrão.

Tudo traz o seu condão:
a criança correndo; o rio
passando, a rosa se abrindo,
a lágrima da alegria,
o silêncio da amargura,
a luz-mansa da ternura,
o sol negro da pobreza.

O tempo é o nada que é nada.
O tempo é o tudo que é tudo,
o tudo que vira nada,
o nada virando amor,
o amor inventando estrelas,
a mais linda se apagou
na fronte da moça amada.

O tempo está no teu peito
clamando nas coronárias,
mas se esconde nas funduras
dos neurônios quando sonhas.
Está no fogo e no orvalho,
fermenta o pão que não chega,
arde o forno da esperança.

Alma do tempo é a mudança
que come o que vai mudando
e depois dorme sonhando
disfarçado de memória.

Nada perdura na vida,
a não ser o próprio tempo,
finge que passa, mas fica.
Imutável, modifica.

O tempo é o sol do milagre.
Cuidado, ele está chegando
na claridão da manhã.
A noite inteira ficou
no seu passo, te esperando,
de espreita em teu próprio sono.

Vem vindo para comer
na palma da tua mão.
Trata bem dele, aproveita,
enquanto há tempo, o que o tempo
permite ao teu coração.

Quem sabe ele vem trazendo
um alfange? Ninguém sabe.
Pode ser uma canção.

Barreirinha estrelada, 1998.


©Thiago de Mello
Poemas Preferidos
pelo autor e seus leitores, 2001
(Do Livro: Campo de Milagres,1998)
Editora Bertrand Brasil Ltda
Rio de Janeiro - RJ - Brasil


Outubro 05, 2008



BUCÓLICA

Miguel Torga


A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;

De casas de moradia
Caídas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;

De poeira;
De sombra de uma figueira;
De ver esta maravilha:
Meu pai a erguer uma videira
Como uma mãe que faz a trança à filha.


©Miguel Torga
Escrito em S. Martinho de Anta, 30 de Abril de 1937
Publicado em “Diário I”, Coimbra, 1941
E em “Poesia Completa”, 2000
Editora: Dom Quixote
Portugal

Setembro 29, 2008



O VENTO NAS FOLHAS

Marta Gonçalves


Converso com o tamarindo e escuto
o vento nas folhas.
A palavra cobre a terra, cobre
as mãos inquietas. A idade é remota.
Longe ficaram as sementes.


A idade cega os olhos e invade a morte.
Não tenho o sono do limbo. O muro nasce
a erva no pôr-do-sol. A árvore vem do tempo
das águas e traz a maresia dos cardumes.


O silêncio das nascentes guarda a lonjura
da canção. O mesmo silêncio no verde pinheiro.
O verso perdeu o sol. Quero falar da criança
da rosa do último adeus da velha casa.
Sombras habitam o âmago do texto.


Converso com o tamarindo a história da alma.
A alma se esqueceu das estrelas. O medo
das confissões e o desespero da fala abrigam
um século de vida nos dedos nodosos de sonhos.


©Marta Gonçalves
In, Paisagem Imaginada
Juiz de Fora: Edições de Minas, 1997
Brasil


Setembro 28, 2008



A SEREIA DAS PERNAS TORTAS

Adília Lopes


Era uma vez uma mulher que tão depressa era feia como era bonita.
Quando era bonita, as pessoas diziam-lhe:
-Eu amo-te.
E iam com ela para a cama e para a mesa.
Quando era feia, as mesmas pessoas diziam-lhe:
-Não gosto de ti.
E atiravam-lhe com caroços de azeitona à cabeça.
A mulher pediu a Deus:
-Faz-me ou bonita ou feia de uma vez por todas e para sempre.
Então Deus fê-la feia.
A mulher chorou muito porque estava sempre a apanhar com caroços de azeitona e a ouvir coisas feias. Só os animais gostavam dela, tanto quando era bonita como quando era feia, como agora que era sempre feia. Mas o amor dos animais não lhe chegava. Por isso deitou-se a um poço. No poço, estava um peixe que comeu a mulher de um trago só, sem a mastigar.
Logo a seguir passou pelo poço o criado do rei, que pescou o peixe.
Na cozinha do palácio as criadas, a arranjarem o peixe, descobriram a mulher dentro do peixe. Como o peixe comeu a mulher mal a mulher se matou e o criado pescou o peixe mal o peixe comeu a mulher e as criadas abriram o peixe mal o peixe foi pescado pelo criado, a mulher não morreu e o peixe morreu.
As criadas e o rei eram muito bonitos. E a mulher ali era tão feia que não era feia. Por isso quando os criados foram chamar o rei e o rei entrou na cozinha e viu a mulher, o rei apaixonou-se pela mulher.
-Será uma sereia?- perguntaram em coro as criadas ao rei.
- Não, não é uma sereia porque tem as duas pernas, muito tortas, uma mais curta que a outra. - respondeu o rei às criadas.
E o rei convidou a mulher para jantar.
Ao jantar, o rei e a mulher comeram o peixe. O rei disse à mulher quando as criadas foram embora:
- Eu amo-te.
Quando o rei disse isto, sorriu à mulher e atirou-lhe com uma azeitona inteira à cabeça. A mulher apanhou a azeitona e comeu-a. Mas, antes de comer a azeitona, a mulher disse ao rei:
- Eu amo-te.
Depois comeu a azeitona. E casaram logo a seguir no tapete de Arraiolos da casa de jantar.


©Adília Lopes
In, A Bela Acordada de Obra,
Lisboa, 1997
Portugal


Setembro 22, 2008




MÃOS ABERTAS

(Ao Manuel Andrade)


Ana Vidal


Mãos abertas... li um dia
um poema que as cantava
mãos que nasceram para dar
Tão livres, que me encantava
aquela estranha magia
Mãos errantes, feitas de ar

Mãos abertas... como as mãos
do poeta que as cantou
tão esquivas como um adeus
Mãos que a poeira sujou
mãos moldadas em mil mãos
mãos de um homem que morreu

Mãos que só deram
e não tiveram
nada de seu
Mãos que se ergueram
e acenderam
estrelas no céu
Mãos que tocaram
mas não guardaram
sonhos perdidos
A sós ficaram
e se tornaram
anjos caídos


©Ana Vidal
In: Seda e Aço
Poemas
D&G Edições, Dezembro de 2005
Portugal