O vento soprou Tão doce e sereno Tocou-me ao de leve Girou sentimentos Dormentes, silentes Que em voo rasante Tocaram o chão
O fundo da alma Fez-se de cor de ouro Castanho ou laranja Deu frutos já secos De um doce amargo Surgiu o Outono No meu coração.
http://mulher50a60.weblog.com.pt/
março 19, 2007
O AMOR ANTIGO
Carlos Drummond de Andrade (Amar se aprende amando)
O amor antigo vive de si mesmo, não de cultivo alheio ou de presença. Nada exige, nem pede. Nada espera, mas do destino vão nega a sentença.
O amor antigo tem raízes fundas, feitas de sofrimento e de beleza. Por aquelas mergulha no infinito, e por estas suplanta a natureza.
Se em toda parte o tempo desmorona aquilo que foi grande e deslumbrante, o antigo amor, porém, nunca fenece e a cada dia surge mais amante.
Mais ardente, mas pobre de esperança. Mais triste? Não. Ele venceu a dor, e resplandece no seu canto obscuro, tanto mais velho quanto mais amor.
março 16, 2007
TELHA DE VIDRO
Rachel de Queiroz
Quando a moça da cidade chegou veio morar na fazenda, na casa velha... Tão velha! Quem fez aquela casa foi o bisavô... Deram-lhe para dormir a camarinha, uma alcova sem luzes, tão escura! mergulhada na tristura de sua treva e de sua única portinha...
A moça não disse nada, mas mandou buscar na cidade uma telha de vidro... Queria que ficasse iluminada sua camarinha sem claridade...
Agora, o quarto onde ela mora é o quarto mais alegre da fazenda, tão claro que, ao meio dia, aparece uma renda de arabesco de sol nos ladrilhos vermelhos, que — coitados — tão velhos só hoje é que conhecem a luz doa dia... A luz branca e fria também se mete às vezes pelo clarão da telha milagrosa... Ou alguma estrela audaciosa careteia no espelho onde a moça se penteia.
Que linda camarinha! Era tão feia! — Você me disse um dia que sua vida era toda escuridão cinzenta, fria, sem um luar, sem um clarão... Por que você na experimenta? A moça foi tão vem sucedida... Ponha uma telha de vidro em sua vida!
março 14, 2007
O CORAÇÃO SE REDIME
Marta Gonçalves
Maurício chegou nas nuvens andava entre velhos eucaliptos. Trazia na pele a quentura do mês de janeiro. Me olhava manso. O chapéu longo escondia a cor dos olhos. Era longa a viagem de Maurício. Suas mãos buscavam o sol. Sempre o sol.
Na tarde morna Maurício desenhou um leque, depois outro, dezenas. Neste desenhar ficou longe a sombra do rosto.
A ferida nas mãos fechou nas asas dos pássaros. Os leques ficaram esquecidos. Uma ternura passava na alma. A dor morreu na pele. Maurício andava no mundo com um velho violino. Crescia meu corpo. Nas manhãs de chuva o coração se redime. A lucidez volta nos olhos e vejo Maurício nas nuvens.
março 06, 2007
BELO BELO I
Manuel Bandeira
Belo belo belo, Tenho tudo quanto quero.
Tenho o fogo de constelações extintas há milênios. E o risco brevíssimo - que foi? passou - de tantas estrelas cadentes.
A aurora apaga-se, E eu guardo as mais puras lágrimas da aurora.
O dia vem, e dia adentro Continuo a possuir o segredo grande da noite.
Belo belo belo, Tenho tudo quanto quero.
Não quero o êxtase nem os tormentos. Não quero o que a terra só dá com trabalho.
As dádivas dos anjos são inaproveitáveis: Os anjos não compreendem os homens.
Não quero amar, Não quero ser amado. Não quero combater, Não quero ser soldado.
- Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples.
março 03, 2007
CONSOLO NA PRAIA
Carlos Drummond de Andrade
Vamos, não chores... A infância está perdida. A mocidade está perdida. Mas a vida não se perdeu. O primeiro amor passou. O segundo amor passou. O terceiro amor passou. Mas o coração continua. Perdeste o melhor amigo. Não tentaste qualquer viagem. Não possuis casa, navio, terra. Mas tens um cão. Algumas palavras duras, em voz mansa, te golpearam. Nunca, nunca cicatrizam. Mas, e o humour? A injustiça não se resolve. À sombra do mundo errado murmuraste um protesto tímido. Mas virão outros.
Tudo somado, devias precipitar-te, de vez, nas águas. Estás nu na areia, no vento... Dorme, meu filho.
Tudo é tangível, luminoso e vago Na orla que se afasta e a ilha dobra Em balas de precário sonho... Tudo é possível porque à vida dura E a noite se desfaz Em altos silêncios puros. Mas nada impede o renascer da imagem, A infância perdida, reavida, Nuns olhos vagabundos debruçados, Junto a um regato que sem cessar murmura.
Sonho
Um poema que ao lê-lo, nem sentirias que ele já estivesse escrito, mas que fosse brotando, no mesmo instante, de teu próprio coração.
MARIO QUINTANA