Alentejo terra de vento e silêncio onde o Homem semeia a Palavra Alentejo terra de sonho e sofrimento onde o poema tem sede de flores e rios. Como quem faz um pão, escrevo à sombra das tuas oliveiras.
E canto o vôo altivo das cegonhas. Esta leveza de viver em ruas brancas...
junho 21, 2007
PASTORAL
Mauro Mota
Não disse de onde veio. Apenas veio quase flutuante pela madrugada. A flauta e um zelo musical em cada ovelha e em todas do seu pastoreio. Toca. (Para o rebanho?) A sua toada interrompe-se às vezes pelo meio. Dela não quer somente o vale cheio: quer levá-la mais longe. Quando nada
houver mais dos cordeiros e dos pastos, do viço matinal, dos brancos rastos de lã, dos guizos de uma ovelha incauta,
fique a lembrança do pastor fugace, que foi pastor só para que ficasse nas colinas a música da flauta.
junho 12, 2007
AS PALAVRAS INTERDITAS
Eugénio de Andrade
Os navios existem e existe o teu rosto encostado ao rosto dos navios. Sem nenhum destino flutuam nas cidades, partem no vento, regressam nos rios. Na areia branca, onde o tempo começa, uma criança passa de costas para o mar. Anoitece. Não há dúvida, anoitece. É preciso partir, é preciso ficar.
Os hospitais cobrem-se de cinza. Ondas de sombra quebram nas esquinas. Amo-te... E abrem-se janelas mostrando a brancura das cortinas.
As palavras que te envio são interditas até, meu amor, pelo halo das searas; se alguma regressasse, nem já reconhecia o teu nome nas minhas curvas claras.
Dói-me esta água, este ar que se respira, dói-me esta solidão de pedra escura, e estas mãos noturnas onde aperto os meus dias quebrados na cintura.
E a noite cresce apaixonadamente. Nas suas margens vivas, desenhadas, cada homem tem apenas para dar um horizonte de cidades bombardeadas.
junho 10, 2007
NÃO SEI QUANTAS ALMAS TENHO
Fernando Pessoa Não sei quantas almas tenho. Cada momento mudei. Continuamente me estranho. Nunca me vi nem acabei. De tanto ser, só tenho alma. Quem tem alma não tem calma. Quem vê é só o que vê, Quem sente não é quem é, Atento ao que sou e vejo, Torno-me eles e não eu. Cada meu sonho ou desejo É do que nasce e não meu. Sou minha própria paisagem; Assisto à minha passagem, Diverso, móbil e só, Não sei sentir-me onde estou. Por isso, alheio, vou lendo Como páginas, meu ser. O que sogue não prevendo, O que passou a esquecer. Noto à margem do que li O que julguei que senti. Releio e digo: "Fui eu?" Deus sabe, porque o escreveu.
Tudo é tangível, luminoso e vago Na orla que se afasta e a ilha dobra Em balas de precário sonho... Tudo é possível porque à vida dura E a noite se desfaz Em altos silêncios puros. Mas nada impede o renascer da imagem, A infância perdida, reavida, Nuns olhos vagabundos debruçados, Junto a um regato que sem cessar murmura.
Sonho
Um poema que ao lê-lo, nem sentirias que ele já estivesse escrito, mas que fosse brotando, no mesmo instante, de teu próprio coração.
MARIO QUINTANA