Tudo imaterial na praia rasa Cheia de sol, ao fim da tarde. Proa ao vento quebrada, A vaga, entre rochedos, se ilumina.
É tudo imaterial, tudo neblina Ténue que aos poucos arde, Ao fim da tarde se desfaz, flutua; Nave de outros tempos se insinua E voo de ave desliza Ao longe linha pura. Tudo imaterial na praia rasa.
Aqui ninguém me vê: amo a ternura.
RuyCinatti nasceu em Londres, em 1915 e faleceu em 1986.
O LIVRO DE NÓMADA MEU AMIGO LÍRICAS PORTUGUESAS, PORTUGÁLIA EDITORA, LISBOA, S.D., 3ª SÉRIE, P. 219
agosto 29, 2007
PEQUENA ELEGIA DE SETEMBRO
Eugénio de Andrade
Não sei como vieste, mas deve haver um caminho para regressar da morte. Estás sentada no jardim, as mãos no regaço cheias de doçura, os olhos pousados nas últimas rosas dos grandes e calmos dias de setembro.
Que música escutas tão atentamente que não dás por mim? Que bosque, ou rio, ou mar? Ou é dentro de ti que tudo canta ainda?
Queria falar contigo, dizer-te apenas que estou aqui, mas tenho medo, medo que toda a música cesse e tu não possas mais olhar as rosas. Medo de quebrar o fio com que teces os dias sem memória.
Com que palavras ou beijos ou lágrimas se acordam os mortos sem os ferir, sem os trazer a esta espuma negra onde corpos e corpos se repetem, parcimoniosamente, no meio de sombras?
Deixa-te estar assim, ó cheia de doçura, sentada, olhando as rosas, e tão alheia que nem dás por mim.
Tudo é tangível, luminoso e vago Na orla que se afasta e a ilha dobra Em balas de precário sonho... Tudo é possível porque à vida dura E a noite se desfaz Em altos silêncios puros. Mas nada impede o renascer da imagem, A infância perdida, reavida, Nuns olhos vagabundos debruçados, Junto a um regato que sem cessar murmura.
Sonho
Um poema que ao lê-lo, nem sentirias que ele já estivesse escrito, mas que fosse brotando, no mesmo instante, de teu próprio coração.
MARIO QUINTANA