Vê, confias com total esperança na terra das douradas sementes, e feliz esperas na primavera que a semente germine. Por ter medo do tempo pensas de fato semear em ti somente a que, semeada pela sabedoria, em silêncio para a eternidade florescer?
DER SÄMANN.
Von Schiller
Siehe, voll Hoffnung vertraust du der Erde den goldenen Samen Und erwartest im Lenz fröhlich die keimende Saat. Nur in der Furcht der Zeit bedenkst du dich Thaten zu streuen, Die, von der Weisheit gesät, still für die Ewigkeit blühen?
abril 25, 2007
CAMALOTES
Raquel Naveira
Na cheia Os camalotes bóiam, Estufados corpos aquáticos Que a correnteza leva; Conjunto de leques duros, Verdes, Que se dissolvem no silêncio; Aqui e ali um buquê de flores Arrebenta lilás; A malha fina de raízes Apanha peixes, Escamas, Pés delicados de pássaros que pousam; A canoa de folhas Navega sem leme Rumo à foz, À pedra, Ao mar que espreme E espuma.
abril 13, 2007
A CONCHA
Vitorino Nemésio
A minha casa é concha. Como os bichos Segreguei-a de mim com paciência: Fachada de marés, a sonho e lixos, O horto e os muros só areia e ausência.
Minha casa sou eu e os meus caprichos. O orgulho carregado de inocência Se às vezes dá uma varanda, vence-a O sal que os santos esboroou nos nichos.
E telhados de vidro, e escadarias Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso! Lareira aberta ao vento, as salas frias.
A minha casa. . . Mas é outra a história: Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço, Sentado numa pedra de memória.
(Poesia, 1935-1940)
abril 01, 2007
DO OUTONO
Licínia Quitério
Veste um fato arroxeado cor de súplica. Talvez pela manhã se pudesse dizer acastanhado. Lavrado de ogivas e de mãos em estrela.
Sobre a terra gretada e as pedras ainda mornas, verte promessas de frescura. Segreda destinos às aves de viagem. Conduz as mãos dos homens no afago de telhados e janelas. Ensina as conchas da ternura aos amantes cansados das areias.
É um tempo amável, para ser lido nas heras irmãs dos velhos muros, nos frutos caídos de muitas gulas, no leque multicolor do sol poente.
Dão-lhe o nome de Outono. Ele chama-me Inverno. Como quem diz sossego ou anúncio de sono.
É inevitável falar dele. Do Outono. Para nós, os que vivemos visitando as quatro assoalhadas da nossa casa anual. Há quem o adore e se sinta acalmado dos excessos do Verão. É tempo bom para os contemplativos das subtis mudanças. Inspirador de poetas e músicos e pintores. Há quem o tema e pense nele como num fim de tempo. Aqui, em nossa volta, a Natureza afadiga-se na mudança dos cenários. Sinto-lhe a respiração forte de quem tem muito para dizer. Não deve ser nada fácil preparar o arrumo dos móveis na velha e austera fortaleza do Inverno.
Tudo é tangível, luminoso e vago Na orla que se afasta e a ilha dobra Em balas de precário sonho... Tudo é possível porque à vida dura E a noite se desfaz Em altos silêncios puros. Mas nada impede o renascer da imagem, A infância perdida, reavida, Nuns olhos vagabundos debruçados, Junto a um regato que sem cessar murmura.
Sonho
Um poema que ao lê-lo, nem sentirias que ele já estivesse escrito, mas que fosse brotando, no mesmo instante, de teu próprio coração.
MARIO QUINTANA