Outubro 08, 2007



O JARDIM

Renata Pallottini


Neste velho jardim há três cachorros
enterrados; seus ossos e seu pêlo.
Sua morna gordura transitória
hoje é húmus e flor para o jardim.
Também sangue enterrado de memória;
também gritos e fugas infantis.
Trepadeiras encobrem lagartixas,
há um louco derramar-se do capim.
Crescerem plantas é o silêncio. Tudo
é o mesmo silêncio, de manhã.

As orquídeas azuis já feneceram
há muito tempo em cinza neste chão.
Os animais passam furtivos, entre
os restos de cerâmica e folhagem.
O muro abre nas fendas novos rumos
e em torno o eterno musgo manso nasce.

Os três cachorros jazem enterrados,
numa constância fiel que não tem fim.
Sua morna gordura é hoje o húmus
e seus olhos são flor neste jardim.

©Renata Pallottini
Chão de Palavras
Editora Círculo do Livro, São Paulo, 1977

5 comentários:

Cátia disse...

ah! Um jardim, independente do que eles esconde...
E eles sempre esconde!
Pra mim trazem alegria, alívio, contentamento.
Sempre preferi flores plantadas do que amontoadas em arranjos. me parece que todas juntas e com todas as suas matizes, são sempre mais felizes.

Abençoada semana para ti!

Marilac disse...

Hay,
Belo esse poema que se inicia de forma diferente..mostrando segredos de um jardim
Existe tanta magia num jardim
Arvores, arbusto, verde,sombras,, flores,suspiros,lembranças de lágrimas e sorrisos!
Belíssima essa foto, tem algo mais romântico que um banco num jardim?


Inspirada cito Sophia de Mello :

Era preciso agradecer às flores
Terem guardado em si,
Límpida e pura,
Aquela promessa antiga
De uma manhã futura.

Sophia de Mello Breyner Andresen, "No Tempo Dividido",

Obrigada pelo lindo comentário que vc fez, fiquei emocionada e mais uma vez confirmo que os anjos sempre encontram um jeito de passar sua mensagem!

Bjs

Marilac

Carol Timm disse...

Querido Hay,

Lembrou-me o jardim de uma amiga, pois há muitos olhos de cães lá, que viraram flor.

E neste mesmo jardim, onde salpicam acerolas pelo chão durante todo o verão para alegria dos passarinhos, também tem as cinzas de um gatinho, o meu inesquecível Tigrinho.

Tinha acabado de falar nos meus gatos com uma amiga, quando li o poema e me lembrei disso...

Aquele jardim é vivo de histórias...

Beijos e uma boa semana para nós!
Carol

Carol Timm disse...

Hayzinho,

Tenho um pressentimento de que vais gostar do meu post de hoje da Casa de Palavras.

Estou bem precisando primaverar um pouco... mas parece que as flores me escapam das mãos ultimamente...

Beijos,
Carol

Marcia disse...

... nossa! Tudo é tão lindo aqui...
Obrigada e Parabéns