Março 06, 2008



Maria do Rosário Pedreira


"O verão deixa-me os olhos mais lentos sobre os livros.
As tardes vão-se repetindo no terraço, onde as palavras
são pequenos lugares de memória. Estou divorciada dos
outros pelo tempo destas entrelinhas - longe de casa,
tenho sonhos que não conto a ninguém, viro devagar

a primeira página: em fevereiro, eles ainda faziam amor
à sexta-feira. De manhã, ela torrava pão e espremia
laranjas numa cozinha fria. Havia mais toalhas para lavar
ao domingo, cabelos curtos colados teimosamente ao espelho.
Às vezes, chovia e ambos liam o jornal, dentro do carro,
antes de se despedirem. As vezes, repartiam sofregamente
a infância, postais antigos, o silêncio - nada

aconteceu entretanto. Regresso, pois, à primeira linha,
à verdade que remexe entre as minhas mãos. Talvez os olhos
estivessem apenas desatentos sobre o livro; talvez as histórias
se repitam mesmo, como as tardes passadas no terraço, longe
de casa. Aqui tenho sonhos que não conto a ninguém."


©Maria do Rosário Pedreira

De: A Casa e o Cheiro dos Livros,
Lisboa: Quetzal, 1996.


5 comentários:

Carol Timm disse...

Querido Hay,

Esse é um daqueles poemas que circulam nas veias, que é caloroso como o sol... que aquece a alma.

O que a gente vive não se repete, mas o que a gente guarda no coração jamais se esquece...

(Lembro de minha tia sem memória contando do amor da vida dela, como poderia esquecer dele? )

A vida é circular, a vida é uma roda que move a gente... a gente roda de ponta a cabeça, roda a cabeça, roda o corpo e volta sempre para dentro da gente mesmo, para onde moram todas as emoções e essas pequenas histórias que aquecem, tal qual o verão que virará outono...

Beijos e viva a poesia em qualquer estação!
Carol

Eternessências disse...

Hay:
Fiquei a pensar no tempo das entrelinhas... no seu ritmo silencioso e desafiador...
Elas me encantam, porque nos convidam sutilmente a descobertas de sentidos. Talvez seja por isso que eu ame tanto os percursos da palavra literária.É que ela não se entrega de imediato; gosta de brincar de "vir- a- ser."
Um beijo de carinho!
Rose.

Nena Dolores disse...

Hay

Não tenho conhecimento de algum poema de Maria do Roário que não goste. Este me remete ao olhar, aos ciclos e nem sempre atentamos a isso.
Adorei a imagem também!

Beijo carinhoso

Marilac disse...

Querido Hay,
Gostei tanto desse e também dos outros poemas que vc já postou da Maria do Rosário que dessa vez fui em busca mais informação e de mais poesias e aqui estou hoje mais apaixonada ainda pela poesia dela.

Este poema fala de ciclos, de amor, dos dias de verão, das palavras e das entrelinhas, de sonhos secretos acalentados.Fiquei imaginando o que estaria contido nas outras páginas...

"onde as palavras
são pequenos lugares de memória"


Beijo carinhoso,
Marilac

Eternessências disse...

Hay:
Passo nos rastro de sua estrela, rogando ao Céu que lance bênçãos de Luz e Alegria ao seu coração, em especial nesta Semana Sagrada, de tantos ensinamentos amorosos e - por que não? - plenificados de poesia!...
Um beijo carinhoso!
Rose.