Maio 04, 2008



NÃO SEI COMO DIZER-TE
II

Herberto Helder


Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
- eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.

Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
- E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
- não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.

Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço -
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave - qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,
que te procuram.


©Herberto Helder
de Poesia Toda,
Assírio & Alvim, 1996
Portugal


3 comentários:

Eternessências disse...

Que poema sensível, Hay!
E o eu lírico, ainda que não soubesse dizer, terminou por dizê-lo da maneira mais bela: a do sentimento!
Uma escolha poética especial a de hoje, meu caro!
Um carinho!
Rose

Carol Timm disse...

Hay,

Não sei se coincidências existem, mas hoje fotografei um girassol nas margens do Lago Paranoá...

Foi a primeira vez que fotografo um girassol... e começo a ver que Brasília tem mesmo seus encantos...

Beijos,
Carol

PS: O Poema é mesmo muito lindo e merecia uma foto assim radiante!

Marilac disse...

Hay,
Que poema lindo!!!
Li, reli encantada...
"Não sei como dizer-te que minha voz te procura e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta..."

O amor sempre tem seu jeito de se expressar,sempre busca o ser amado.
Engraçado como alguns poemas e musicas parecem ser feitos exatamente para o que estamos vivendo.Em Lisboa na ultima noite,ouvi um fado que dizia exatamente o que eu sentia :
Ainda nem parti e já sinto saudades...

bjs
Marilac