Setembro 29, 2008



O VENTO NAS FOLHAS

Marta Gonçalves


Converso com o tamarindo e escuto
o vento nas folhas.
A palavra cobre a terra, cobre
as mãos inquietas. A idade é remota.
Longe ficaram as sementes.


A idade cega os olhos e invade a morte.
Não tenho o sono do limbo. O muro nasce
a erva no pôr-do-sol. A árvore vem do tempo
das águas e traz a maresia dos cardumes.


O silêncio das nascentes guarda a lonjura
da canção. O mesmo silêncio no verde pinheiro.
O verso perdeu o sol. Quero falar da criança
da rosa do último adeus da velha casa.
Sombras habitam o âmago do texto.


Converso com o tamarindo a história da alma.
A alma se esqueceu das estrelas. O medo
das confissões e o desespero da fala abrigam
um século de vida nos dedos nodosos de sonhos.


©Marta Gonçalves
In, Paisagem Imaginada
Juiz de Fora: Edições de Minas, 1997
Brasil


3 comentários:

Anônimo disse...

Converso com o tamarindo a história da alma.
A alma se esqueceu das estrelas. O medo
das confissões e o desespero da fala abrigam
um século de vida nos dedos nodosos de sonhos.


Lindo isso, HAy!

Tenho acompanhado seus posts, como sempre, cheios de belas poesias, seja nos poemas ou nas imagens escolhidos com carinho.

Beijo carinhoso

Nena

Eternessências disse...

Querido HAY:
Um trecho deste belo poema me tocou profundamente:
"A ALMA SE ESQUECEU DAS ESTRELAS..."
Fiquei a pensar que , às vezes, vamos permitindo esse afastamento... E esse contato estelar é tão nutritivo para a alma!...
Fico muito feliz que você esteja retornando a este espaço com mais freqüência!
Tudo de bom! Do Céu e da Terra!
Carinho,
Rose.

Eternessências disse...

Hay:
Obrigada pelo lindo poema que me deixou lá! Sua sensibilidade está sempre a postos, não?
Revendo a foto deste "post", senti cheirinho de verde... É lindo o muro cheio de musgos!... Algo ali me evocou o passado medieval, suas construções misteriosas e inspiradoras... De algum modo, interagi com ela, e isso me fez bem!
Beijos,
Rose.