Setembro 13, 2008



OS BARCOS

Thiago de Mello


Os barcos nascem como nascem dores.
E chegam como pássaros ao céu,
como flores do chão. São mensageiros.
Vêm na crista dos astros, vêm de ventres
por onde rolam rastros de cantigas
de antigas barcarolas estaleiras.
Trazem na proa audácias e esperanças,
as cismas e os assombros nos porões.


A mão que os faz, humana, os não perfaz,
apenas segue, tímida, ao comando
de vozes nascituras que lhe chegam
da boca dos martelos e das ripas.
A si mesmos se fazem, pelo mando
de voz sem boca: os barcos são auroras.
Despejam-se na foz de águas escuras.
Contudo, chegam sempre de manhã.


Chegam antes, alguns. Outros são póstumos.
Há os que não chegam nunca: naufragaram
nas primícias do rio. Tantos mastros
se vergam na chegada, outros se racham.
Partem-se popas, lemes, em pelejas
imaginárias contra calmarias.
Uns são velozes, zarpam mal-chegados,
outros são lerdos, de hélices sem sonhos.


Há barcaças nascidas para as idas
ao oco dos mistérios, há as que trazem
lendas futuras presas ao convés,
as que guardam nos remos os roteiros
de grandes descobertas e as que vêm
para vingar galeras soçobradas.
Há as que já chegam velhas, sem navego.


O mar, sempre desperto, espreita e espera
a todos, e de todos se acrescenta.
Para barcos se fez o mar amargo
e fundo, sobretudo se fez verde.
O mar nem sempre os quer. O mar se tranca
frequentemente a barcos, e os roteiros
marítimos se encantam em lajedos,
estraçalhando quilhas e calados.


O coração das caravelas viaja
desfraldado nos mastros, invisível
bandeira também bússola. Altaneiro,
ele surpreende, quando manso, as rotas
que se desenham longes sobre o mar.
Sextante é o coração, que escuta estrelas,
que antes de erguer as âncoras demora-se
em concílio amoroso com os ventos.


O coração comanda. Manda e segue.
E, à sua voz, os barcos obedecem
e avançam, confiantes, pois dos mastros
as velas vão surgindo, vão crescendo
como cresce uma folha de palmeira,
às manobras da brisa sempre dóceis.
De caminhos de barcos sabe o mar.
Os ventos é que sabem dos destinos.


©Thiago de Mello
In, Poemas Preferidos
pelo autor e seus leitores, 2001
(Do Livro: Tenebrosa Acqua,1954)
Editora Bertrand Brasil Ltda
Rio de Janeiro - RJ - Brasil


3 comentários:

Carol Timm disse...

Hay,

Os meus barcos que traçam rotas que nunca fiz, trouxeram o passado de onde eu vim.

Meu bisavô materno era capitão de navio. Vinha da Alemanhã com mercadorias e atracava com sua embarcação nos Portos do Sul do Brasil. Depois voltava para a Europa e assim viveu até que um dia, na sua embarcação, venho a família de uma jovem imigrante, por quem ele se enamorou e se casou. Pouco tempo depois, o coração de meu bisavô ancorava para sempre em terra firme, num lugar chamado São Lourenço do Sul. Uma pequena cidade no Rio Grande do Sul, que fica às margens da Lagoa dos Patos.

Meus bisavôs morreram muito jovens. Nenhum deles completou 50 anos de idade. De modo que meu avô materno, o último dos 12 filhos do casal foi criado pelo irmãos mais velhos. Mas avô sim teve uma vida longa, completou os cem anos de idade.

Os barcos são o começo da história de quase toda a minha família. Também trouxe meus avôs paternos para o Brasil. Eles também jovens imigrantes poloneses.

Os barcos trazem para mim muitas histórias de família que eu ainda não escrevi mas que sei contar e imaginar como foram vividas.

Os barcos, de certa forma, me trouxeram até aqui...

Foi isso que senti ao ler esse poema lindo de barcos e navegações...

Beijos,
Carol

Tami R. disse...

Oi Hay!
Passando pra deixar um beijo :)

Marilac disse...

Hay,
Lindo poema, e o mar é sempre um tema fascinante, tantos caminhos , tantas histórias passam pelo mar.
Gosto do mar, sempre gostei ao mesmo tempo que também tenho um certo temor e respeito, como se trouxesse na alma lembranças de mares revoltos...
Desse amor pelo mar, talvez venha a fascinação por faróis...

"O coração comanda. Manda e segue..

"De caminhos de barcos sabe o mar.
Os ventos é que sabem dos destinos."

Que nossa travessia seja abençoada!

bjs
Marilac