Setembro 08, 2008



POEMA PARA HABITAR

Albano Martins



A casa desabitada que nós somos

pede que a venham habitar,

que lhe abram as portas e as janelas

e deixem passear o vento pelos corredores.

Que lhe limpem os vidros da alma

e ponham a flutuar as cortinas do sangue

– até que uma aurora simples nos visite

com o seu corpo de sol desgrenhado e quente.

Até que uma flor de incêndio rompa

o solo das lágrimas carbonizadas e férteis.

Até que as palavras de pedra que arrancamos da língua

sejam aproveitadas para apedrejarmos a morte.


©Albano Martins
Em: Coração de Bússola
Colecção "Daimon", Évora, 1967
Portugal


5 comentários:

Carol Timm disse...

Hay,

É tão difícil saber o que realmente nos habita todas as horas, porque somos tantos momentos.

Um dia podemos abrigar as quatro estações do ano. Ou, mais de uma primavera... Algumas já vividas e outras que ainda estão por vir...

Cada dia somos uma existência completa e em certos momentos, a vida inteira passa através de nós... ou pode ficar para sempre.

Este seu poema de pedra tem a força de uma casa simples mas firme. Na foto contrastando com as fortes palavras do poema, há leveza das folhas douradas do outono na sua moldura...

Mais do que "apredejar a morte com palavras que arrancamos da língua", acho que nós (Você, eu e os amntes da beleza) esperamos saudar a vida com palavras que habitam o mais nobre de nossas almas, com palavras que podem podem brilhar numa "aurora simples", mas muito aguardada.

Beijos,
Carol

Carol Timm disse...

PS: Nós, os AMANTES da beleza, da poesia, da natureza...

Só para retificar uma palavrinha escrita incorretamente, Bjs...

Luciene de Morais disse...

Entendo que precisamos arejar a alma,
tirar o pó, remover o ar viciado, para que uma novidade quente, entre.
Assim nos mantemos vivos, desejamos viver...
Gostei do poema, Hay, seu blog é lindo e de muita sensibilidade!
Beijo

Eternessências disse...

Hay:
A metáfora da casa é bastante significativa,pois nos remete à necessidade de preenchimento e plenitude. Uma casa é espaço para abrigo, aconchego e aprendizagens diversas.Uma casa é feita para ser habitada.
Possamos nós, "casas" que somos,abrir nossas portas para a luz, a paz e a alegria, espalhando-as pelos nossos "cômodos"!...
Um abraço de carinho!
Rose.

Marilac disse...

Hay,
Vc sempre combinando com perfeição imagem e poesia.
Adorei essa metafóra da casa, que como bem disse nossa querida amiga Rose,nos remete a necessidade de preenchimento.
E para isso temos que deixar a luz do sol entrar...Temos que aprender a partilhar , a amar e a receber o amor.

"que lhe abram as portas e as janelas
e deixem passear o vento pelos corredores..."

E que esse vento leve para longe tudo que estava impedindo que a casa fosse habitada e que a alegria finalmente pudesse entrar.

bjs
Marilac