POEMA PARA HABITAR
Albano Martins
A casa desabitada que nós somos
pede que a venham habitar,
que lhe abram as portas e as janelas
e deixem passear o vento pelos corredores.
Que lhe limpem os vidros da alma
e ponham a flutuar as cortinas do sangue
– até que uma aurora simples nos visite
com o seu corpo de sol desgrenhado e quente.
Até que uma flor de incêndio rompa
o solo das lágrimas carbonizadas e férteis.
Até que as palavras de pedra que arrancamos da língua
sejam aproveitadas para apedrejarmos a morte.
©Albano Martins
Em: Coração de Bússola
Colecção "Daimon", Évora, 1967
Portugal


5 comentários:
Hay,
É tão difícil saber o que realmente nos habita todas as horas, porque somos tantos momentos.
Um dia podemos abrigar as quatro estações do ano. Ou, mais de uma primavera... Algumas já vividas e outras que ainda estão por vir...
Cada dia somos uma existência completa e em certos momentos, a vida inteira passa através de nós... ou pode ficar para sempre.
Este seu poema de pedra tem a força de uma casa simples mas firme. Na foto contrastando com as fortes palavras do poema, há leveza das folhas douradas do outono na sua moldura...
Mais do que "apredejar a morte com palavras que arrancamos da língua", acho que nós (Você, eu e os amntes da beleza) esperamos saudar a vida com palavras que habitam o mais nobre de nossas almas, com palavras que podem podem brilhar numa "aurora simples", mas muito aguardada.
Beijos,
Carol
PS: Nós, os AMANTES da beleza, da poesia, da natureza...
Só para retificar uma palavrinha escrita incorretamente, Bjs...
Entendo que precisamos arejar a alma,
tirar o pó, remover o ar viciado, para que uma novidade quente, entre.
Assim nos mantemos vivos, desejamos viver...
Gostei do poema, Hay, seu blog é lindo e de muita sensibilidade!
Beijo
Hay:
A metáfora da casa é bastante significativa,pois nos remete à necessidade de preenchimento e plenitude. Uma casa é espaço para abrigo, aconchego e aprendizagens diversas.Uma casa é feita para ser habitada.
Possamos nós, "casas" que somos,abrir nossas portas para a luz, a paz e a alegria, espalhando-as pelos nossos "cômodos"!...
Um abraço de carinho!
Rose.
Hay,
Vc sempre combinando com perfeição imagem e poesia.
Adorei essa metafóra da casa, que como bem disse nossa querida amiga Rose,nos remete a necessidade de preenchimento.
E para isso temos que deixar a luz do sol entrar...Temos que aprender a partilhar , a amar e a receber o amor.
"que lhe abram as portas e as janelas
e deixem passear o vento pelos corredores..."
E que esse vento leve para longe tudo que estava impedindo que a casa fosse habitada e que a alegria finalmente pudesse entrar.
bjs
Marilac
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