Novembro 03, 2007



AS ÁRVORES

Álvaro Pacheco

Escuta este segredo: o crescimento
é no passado, o presente
é um disfarce
e as árvores que permanecem
quase sempre não têm
a cor normal de árvores.

Fica assim muito claro: como
sobreviver com o vento
não te poupando as crinas dos cavalos

e os pássaros negros te seguindo
vindos de um desenho fúnebre
voando em formação
pelas inscrições no céu
das palavras e gestos
que nos esconderam
as pessoas que amamos?

No passado é que crescem as árvores
sempre no começo do outono
de países distantes.

Teresina, novembro 86.


©Álvaro Pacheco
Geometria dos Ventos
Editora Record - Rio de Janeiro - 1992 - 1ª. Edição

2 comentários:

Cátia disse...

Você realmente concorda:
o crescimento
é no passado, o presente
é um disfarce?

Fiquei fazendo análises...

Marilac disse...

Querido Hay,

Ao ler este poema tive a sensação de que segredos eram sussurrados por um coração cujas alegrias ficaram num passado distante.
E que sofre pelas lembranças " de palavras e gestos que nos esconderam as pessoas que amamos? "

Veio ao meu pensamento trechos do
Rubaiyat de Omar Khayyam ( poeta persa... acho que vc já conhece) que li há muito muito tempo :

Velho mundo sob o passo do cavalo branco e negro dos dias e das noites, és o palácio triste onde mil Djenchids sonharam com a glória e mil Bahrams com o amor,
e a cada manhã acordavam chorando.

Tantos carinhos, tantas delícias,
tanta ternura no começo do nosso amor.Mas agora o teu prazer
é dilacerar o meu coração. Por quê?


beijos
com carinho,
Marilac