Novembro 11, 2007



CHUVA OBLÍQUA

Fernando Pessoa

Atravessa esta paisagem o meu sonho dum porto infinito
E a cor das flores é transparente de as velas de grandes navios
Que largam do cais arrastando nas águas por sombra
Os vultos ao sol daquelas árvores antigas...

O porto que sonho é sombrio e pálido
E esta paisagem é cheia de sol deste lado...
Mas no meu espírito o sol deste dia é porto sombrio
E os navios que saem de porto são estas árvores ao sol...

Liberto em duplo, abandonei-me da paisagem abaixo...
O vulto do cais é a estrada nítida e calma
Que se levanta e se ergue como um muro,
E os navios passam por dentro dos troncos das árvores
Com uma horizontalidade vertical,
E deixam cair amarras na água pelas folhas uma a uma dentro...

Não sei quem me sonho...
Súbito toda a água do mar do porto é transparente
E vejo no fundo, como uma estampa enorme que lá estivesse desdobrada,
Esta paisagem toda, renque de árvore, estrada a arder em aquele porto,
E a sombra duma nau mais antiga que o porto que passa
Entre o meu sonho do porto e o meu ver esta paisagem
E chega ao pé de mim, e entra por mim dentro,
E passa para o outro lado da minha alma...
(...)

Fernando Pessoa
Portugal
1888-1935

Nasceu em Lisboa. Entre 1895 e 1905, viveu na África do Sul. Escreveu quer sob os heterónimos Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis, quer sob o semi-heterónimo Bernardo Soares e Pessoa ortónimo. É considerado um dos maiores poetas portugueses de todos os tempos. Poeta e prosador. Apesar de muito conhecido, Pessoa continua ainda por conhecer. É, decerto, o mais complexo e diversificado dos escritores portugueses.

4 comentários:

Ela disse...

Eu simplesmente adoro Fernando Pessoa.

cadê voCê menino?

Carol Timm disse...

Hay,

Este sonho do Pessoa é tão complexo, me perco lendo, me perco no sonho, me sinto perdida...

Mas volto a sua foto da Nau e penso que estamos todos no mesmo barco em busca de um porto seguro para atracar, talvez um Porto Alegre.

Sinto que viajar é preciso, mas retornar ao ponto de partida, que agora é de chegada, também é bom, também me faz sonhar.

O sonho se move através dos dias, mas os dias mudam e alguns sonhos ficam eternizados pelo tempo.

Beijos,
Carol

Marilac disse...

Querido Hay,
Adoro Fernando Pessoa!!!
E também acho que é o mais complexo e diversificado dos escritores portugueses.

Destaco em especial esse trecho:
"Não sei quem me sonho..."

E então por todo o poema, nos sentimos assim perdidas, quando pensamos entender ele muda o foco...
E traduz tão bem o emaranhado de emoções ,tão confusas, que vivemos em alguns momentos da nossa vida.

As vezes estamos sob o sol, e alma parece enfrentar o dia mais nublado..estamos acompanhados e nos sentimos sós..pensamos que estamos certas das nossas emoções e algo nos faz perder nem que seja por um pequeno tempo o leme.

Adorei a foto essa nau solitária, corajosa navegando em aguas ainda calmas mas sob um céu que anuncia tempestade.


bjs
com carinho,
Marilac

Ela disse...

Aqui está tudo mais leve e lindo!
Desculpa afalta de tempo hoje, foi força de função.
Até