
SOBRE FLANCOS E BARCOS
Eugénio de Andrade
Havia ainda outro jardim o da minha vida
exíguo é certo mas o do meu olhar
são talvez dois pássaros que se amam
um sobre o outro ou dois cães de pé
é sempre a mesma inquietação
este delírio branco ou o rumor
da chuva sobre flancos e barcos
o inverno vai chegar
sobre a palha ainda quente a mão
uma doçura de abelha muito jovem
era o sopro distante das manhãs sobre o mar
e eu disse sentindo os seus passos nos pátios
do coração
é o silêncio é por fim o silêncio
vai desabar
©Eugénio de Andrade
In: Véspera de Água

5 comentários:
Hay:
Gostei muito da imagem criada pelo poeta: "pátios do coração"...
Fiquei a pensar que raramente cuidamos desses espaços;preocupamo-nos com os sentimentos que já nos habitam e nos esquecemos de que até chegarem ao coração, passaram pelo pátio...
Penso que o pátio é um ambiente seletivo,lugar de percepção de quem chega...Nele, escolhemos quem (o que)será acolhido no coração!...
Viajei!...Mas não consigo ler poesia sem mergulhar...
Parabéns pelo novo visual do "blog"! Muito sensível!...
Beijos etéreos...
Rose
que liiiiiiiiiiiindo esse poema do Egénio, não conhecia, aff....
o silêncio vai desabar foi de matar.
beijos e bom fds, querido
MM.
Eu torço, constantemente para o silêncio desabar.
A propósito , olaaaa, tava com saudade.
Querido Hay,
Lindo, lindo esse poema !!!
Adorei o comentário da Rose,eu tenho uma especie de intuição sobre o que se passa no pátio ,quem vai chegar mais perto, com quem preciso ter mais cuidado...e o silêncio prestes a desabar deixa a minha alma em alerta !
Como é maravilhoso sentir os passos nos pátios do coração...
É a vida acontecendo...
beijos e um excelente final de semana
Marilac
Querido Hay,
Nessas férias tive muitos dias de silêncio, alguns até de reflexões sobre o tempo que me resta, sobre a tal maturidade.
Um destes, bem compratilhei contigo, às vésperas de completar mais uma primavera.
Então, vieram os dias de sol, de festa e de voltar a celebrar a vida. Lentamente percebo que cabem muitas emoções dentro dessa história um tanto já vivida.
Ouço com a mesma emoção de outrora o canto dos passarinhos na parreira da minha tia, casa da minha infância.
Sinto o vento das ruas de Porto Alegre com o mesmo frescor de quando estava lá, mas ainda não andava sozinha por aquelas mesmas ruas.
Quanto mais o tempo passa mais sabores e perfumes cabem em mim.
A maturidade não é só de perdas, é um reencontro de lembranças com novos olhares sobre o percorrido e o inusitado.
Os barcos ainda partem dos portos do sul e meu olhar se renova para navegar como as gaivotas sob o mar.
Beijos,
Carol
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