ORFEU REBELDE
Miguel Torga
Orfeu rebelde, canto como sou:
Canto como um possesso
Que na casca do tempo, a canivete,
Gravasse a fúria de cada momento;
Canto, a ver se o meu canto compromete
A eternidade no meu sofrimento.
Outros, felizes, sejam rouxinóis...
Eu ergo a voz assim, num desafio:
Que o céu e a terra, pedras conjugadas
Do moinho cruel que me tritura,
Saibam que ha' gritos como há nortadas,
Violências famintas de ternura.
Bicho instintivo que adivinha a morte
No corpo dum poeta que a recusa,
Canto como quem usa
Os versos em legitima defesa.
Canto, sem perguntar à Musa
Se o canto é de terror ou de beleza.
Pseudónimo do médico Dr. Adolfo Rocha.
Natural de Trás-os-Montes,
viveu e exerceu a sua profissão em Coimbra
onde faleceu no ano de 1995.
Entre muitos outros prêmios,
figura o da Sociedade Portuguesa de Escritores.
Do livro "Libertação" - 3ª. edição - Coimbra (1960)


3 comentários:
Querido Hay,
Confesso que deve ser a primeira vez que leio Miguel Torga.
Há uma força imensa nesses versos. Há uma dor que se sublima pela poesia. Há beleza atrás do árduo desafio de viver.
Gostei imensamente, sem contar que é perfeito com a bela foto do moinho, que tanto gosto de imaginar um cata-vento.
Fez me lembrar a palestra musical sobre o Ástor Piazzolla, em que soube que a música o fez superar o sofrimento. É a catarse da arte.
O avô de Ástor, holandes, cruzava os mares, como alguns de nós tenta desbravar os oceanos da vida em busca da redenção da arte.
Beijos,
Carol
Querido Hay,
Eu já havia me encantado com Miguel Torga, que apenas começo a conhecer... e este poema que vc selecionou é dos mais belos.
Gostei muito e então reforço tudo que a querida Carol expressou tão bem.
Sempre me surpreendo com a capacidade da poesia de expressar a dor com suavidade e beleza
Cito Miguel Torga :
Remendo o coração, como a andorinha
Remenda o ninho onde foi feliz.
Artes que o instinto sabe ou adivinha…
Mas fico a olhar depois a cicatriz.
bjs
Marilac
as vezes... querido Hay, é importante perguntar a musa...
Postar um comentário